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Machismo no esporte: quando o jogo não termina após o apito final

Data: 23/02/2026 13:00

Autor: Giovane Santin

imgAs palavras de um jogador de futebol após uma partida ocorrida sábado (dia 21) pelo Campeonato Paulista, foi interpretada por alguns (no masculino) como uma fala de “cabeça quente”, uma “força de expressão decorrente da emoção” ou “frase isolada e infeliz”, mas se trata de um sintoma que revela algo muito mais profundo: o machismo existente não só no esporte, mas em praticamente todas as profissões e espaços de poder e prestígio existentes em nossa sociedade.
 
Ao dizer que “não adianta colocar mulher para apitar um jogo desse tamanho”, o jogador não fez questionamentos às decisões da árbitra sobre lances ao longo da partida, nem mesmo a respeito da qualidade do seu trabalho. 
 
Está muito além disso. Trata-se de uma referência explícita sobre a legitimidade de uma mulher ocupar aquela posição naquele momento. A sua afirmação é clara: em jogo importante, mulher não serve. Não se trata de futebol, mas de gênero.
 
É o tipo de fala que ecoa livremente num ambiente que tem demonstrado ser terreno fértil para narrativas preconceituosas de toda espécie (machismo, racismo, homofobia, xenofobia, etc). A questão é que o preconceito em pauta não termina em campo, senão vejamos: quantas mulheres são presidentes de clubes, federações ou entidades esportivas? Quantas mulheres treinam times masculinos em qualquer esporte? 
 
A realidade demonstra que as modalidades esportivas que se apresentam como espaço de força, dedicação e superação, reproduz a falsa percepção de que o lugar da mulher é acessório e secundário. Essa lógica de desrespeito à legitimidade de uma árbitra em um estádio lotado é a mesma que impede mulheres de serem vistas como autoridade capaz de chefiar empresas, presidir órgãos ou instituições, liderar equipes ou ocupar cargos políticos.  
 
Em reuniões de trabalho não é raro que uma proposta feita por uma mulher só seja levada a sério depois de repetida por um colega homem. Em ambientes acadêmicos, cientistas mulheres ainda enfrentam descrédito, interrupções constantes e questionamentos desproporcionais. Diariamente mulheres são julgadas pela roupa, pelo tom de voz, pelo estado civil ou pela maternidade, enquanto seus colegas homens são avaliados por ideias e projetos. A mensagem é sempre a mesma: o poder tem rosto masculino; às mulheres, reserva-se a desconfiança.
 
Quando um atleta diz publicamente que não se deve colocar mulher para apitar “jogo grande”, ele reproduz e reforça a existência de um mecanismo de exclusão. Trata-se de uma espécie de autorização simbólica para que se repitam frases com conteúdo machistas que prefiro não citar para não (re)forçá-las através deste texto. 
 
O episódio de sábado passado não pode ser tratado como um mero ato de “infelicidade”, “calor do momento” ou “fato isolado”. Apesar de o pedido de desculpas ser importante é fundamental que venha acompanhado de mudanças concretas de comportamento em todos os espaços – dentro e fora do esporte -. 
 
É preciso superar de uma vez por todas esse olhar reproduzido pela fala (e pelo silêncio também!) de que a presença de mulheres em espaços de poder é uma “concessão” ou “benefício”, sob pena de qualquer tipo de desacerto ser usado como confirmação de um preconceito antigo que não se cansa de passar vergonha nas bocas daqueles que reproduzem o machismo.
 
Algumas medidas para enfrentarmos esses (pre)conceitos são de conhecimento público. No esporte, é necessário investir de forma séria na formação, proteção e promoção de árbitras, treinadoras, dirigentes e jornalistas esportivas, garantindo que elas não sejam abandonadas e/ou excluídas diante de ataques misóginos. Nos espaços de poder, é preciso ampliar políticas de igualdade de gênero nas empresas, na política, nas universidades e em todas as esferas, com metas, transparência e responsabilização.
 
Também penso para além disso: é necessário que homens - especialmente aqueles que ocupam posições de visibilidade - entendam o peso do que dizem. Uma frase dita “de cabeça quente” ou “com força de expressão” em público ou frente às câmeras não desaparece com o final da partida. Ela se espalha, fortalece estereótipos, encoraja ataques e contribui para que portas sejam ou continuem fechadas para mulheres em diferentes áreas.
 
Quando uma árbitra é deslegitimada por ser mulher, não é apenas o futebol que perde. Perdem também todas as meninas que lutam com responsabilidade, competência e ardor para conquistar seus espaços, seja no campo, na audiência, no laboratório, no parlamento ou na sala de reunião. Combater esse tipo de machismo não é defender apenas uma profissional atacada em uma partida de futebol: é defender o direito de todas as mulheres de ocupar e manter, em igualdade, os espaços de poder da nossa sociedade.
 
* Giovane Santin e vice-presidente da OAB MT, advogado criminalista, doutor em Ciências Sociais pela Unisinos, mestre e especialista em Ciências Criminais pela PUC/RS e professor da UFMT
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